Centros Interpretativos de Visitantes

O Iphan realizou, no final de 2019, uma visita técnica com gestores de turismo de municípios brasileiros que possuem patrimônios mundiais declarados pela Unesco, para conhecerem centros de visitantes interpretativos em Portugal. A ideia é trazer esse conceito, já amplamente difundido mundo afora, para o Brasil. Os centros de visitantes podem servir como local para uma instrução inicial aos turistas, antes de entrarem efetivamente no espaço interpretado, que pode ser desde um museu até um parque natural. Pode servir também como espaço de aproximação entre o visitante e o sítio interpretado, mesmo que ele, o visitante, não pretenda fazer a visita completa. Ali no Centro de Visitantes já deve estar um conteúdo que satisfaça a uma parte dos turistas. Isso ajuda inclusive no manejo do fluxo de visitantes em áreas sensíveis, como parques naturais por exemplo. O centro de interpretação não apenas divulga e apresenta o patrimônio ao visitante, mas deve realizar pesquisas sobre o bem interpretado. É, pois, um centro de pesquisa também, como trabalham os centros de visitantes do TAMAR, por exemplo. São centro de pesquisa para muito além de informações turísticas.

A interpretação do Patrimônio nos encanta desde os nossos saudosos tempos da Faculdade Olga Mettig de turismo, a Factur. Lá tivemos contato, pesquisamos e realizamos trabalhos de interpretação do patrimônio, em um viés sofisticado intelectualmente, pois envolvíamos a comunidade local para a interpretação do seu próprio patrimônio. Ninguém melhor do que a comunidade para revelar os significados de um patrimônio, que pode ser um parque natural, um monumento, uma manifestação cultural e até um jeito de se relacionar uns com os outros. Quanto mais intangível é o patrimônio, mais delicado e sofisticado deve ser o processo de sua interpretação, explica Ernesto Ribeiro, sócio da Cria Rumo. Na Factur encontramos pessoalmente figuras importantes no pensamento interpretativo, como a nossa querida professora Eny Kleyde, Stela Murta, Jorge Morales, Luzia Neide Coriolano e tantos outros.

Naquele período trabalhamos o patrimônio na ilha de Itaparica, em Maragogipinho, na Península de Itapagipe, no Forte São Marcelo e em tantos outros lugares de Salvador e da Bahia, sempre trazendo à tona o significado do patrimônio material e imaterial, natural e cultural, para o fortalecimento da cultura local e do turismo em nossa terra.
A Interpretação do Patrimônio visa revelar os significados do patrimônio local, provocar a curiosidade dos visitantes e relacionar o patrimônio com a vida das pessoas, utilizando-se de técnicas de comunicação, como a sinalização e os dioramas, e artes como teatro, dança, música, artesanato, moda e gastronomia. Como resultado, produz conexões emocionais e intelectuais entre visitantes e o patrimônio interpretado, aumentando o nível de conscientização em relação ao patrimônio natural e cultural, atribuindo-lhe um maior nível de respeito, além de facilitar sua conservação e contribuir para minimizar os impactos causados pelo fluxo de turistas.

De acordo com Rejane Mira, sócia da Cria Rumo e mestre em Desenvolvimento Regional, a “Interpretação do Patrimônio revela o bem de uma forma que aproxima o visitante da informação, facilitando a absorção do conhecimento e a criação de novos significados. A partir do momento que os visitantes sentem e entendem a importância de um fato, uma pessoa, um equipamento ou qualquer bem interpretado, elas tendem a valorizar, passando a preservá-lo como riqueza cultural ou natural”. Daí propomos, na Cria Rumo, as experiências inusitadas e autênticas, formatando novos produtos e serviços para os destinos, explica.

Na Cria Rumo os conceitos de Interpretação do Patrimônio influenciam os nossos trabalhos e nós não entendemos como isso poderia ser diferente. Quando fazemos um plano de marketing para um destino turístico, por exemplo, a interpretação do patrimônio daquele lugar norteia todo o trabalho, explica Manuela Scaldaferri, sócia da Cria Rumo e especialista em Turismo e Interpretação do Patrimônio. ‘Por isso fazemos coisas diferentes’. Imagine, leitor, como seria um plano de marketing para o destino turístico Salvador, que tivesse a revelação dos significados do nosso patrimônio material e imaterial como um elemento estruturante do pensamento mercadológico. É nisso que acreditamos, é isso que fazemos, conclui.

Voltando aos centros de visitantes, mesmo os grandes espaços urbanos podem ter locais onde o visitante deva se dirigir para ser, de alguma forma criativa, instruído antes de sentir o lugar. Ele vai se emocionar mais e entender melhor o que tudo aquilo significa, se tiver sido devidamente preparado para ‘entrar’ no sítio turístico.
Torcemos para que as visitas do Iphan aos Centros de Visitantes de Portugal surtam efeitos práticos em nossos destinos turísticos e deixamos aqui uma provocação: será que os centros de visitantes, no mundo vulnerável e instável do pós-covid, poderão fazer uso das tecnologias disponíveis e apresentar o patrimônio na tela dos smartphones?


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Editorial, 13.AGOSTO.2020 | Postado em Geral
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